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Ipeteana a primeira fsica brasileira


Yolande Monteux (4ª da esq. para a dir.), primeira física formada no Brasil, ao lado do físico Gleb Wataghin. Na foto, a equipe da FFCL-USP  aguarda o embarque em avião cedido pela FAB para experiências sobre os raios cósmicos. Década de 1940, acervo histórico do IFUSP
 

As transformações do papel social feminino no século XX refletiram-se em mudanças na atuação da mulher no mundo científico e tecnológico brasileiro.

Em um universo então predominantemente masculino, a trajetória de Yolande Anna Esther Monteux foi um marco na história das pesquisadoras brasileiras: foi a primeira mulher a se formar em Física no País, uma das primeiras a se formar em Matemática no Estado de São Paulo e a segunda a se tornar pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Nascida em Paris em outubro de 1910, Yolande chegou ao Brasil com três anos de idade. Na época, o acesso da mulher à educação era precário e não era considerado prioridade pelas famílias brasileiras. A educação fora das escolas era comum, geralmente nas próprias residências. A mulher só teve acesso à educação superior a partir da criação da primeira universidade brasileira em 1912 - a Universidade Federal do Paraná. Ainda assim, elas tinham acesso preferencialmente aos cursos de humanidades.

Em 1934, a criação da Universidade de São Paulo (USP) abriu a possibilidade da participação das mulheres na Ciência & Tecnologia. No mesmo ano teve início o primeiro curso de Física no Brasil, organizado por Gleb Wataghin, que deu grande impulso às pesquisas no Brasil e na Itália. Em 1935 Yolande ingressa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP para cursar Física e Matemática.

Em 1937 naturalizou-se brasileira, mesmo ano em que se formou na universidade. Trabalhou com Giuseppe Occhialini (Sur um nouveau type de compteurs plans. Anais da Academia Brasileira de Ciências 12/126) e Gleb Wataghin nas pesquisas sobre raios cósmicos, tornando-se uma das pioneiras na área, que contava com nomes como Marcello Damy de Souza Santos, Paulus Aulus Pompeia, Mario Schenberg e Oscar Sala. Em 1941 Yolande foi contratada pela USP como assistente da cadeira de Física Geral e Experimental, e pela cadeira de Física Teórica e Física Matemática, em 1942.

Por seu trabalho na universidade, foi convidada em 1943 a estagiar no Laboratório de Espectroscopia do IPT com Oscar Bergstrom Lourenço, na Seção de Química. Nessa época, o corpo técnico do instituto contava apenas com duas mulheres: Yolande e a química Frida Ana M. Hoffmann, situação que perdurou por quase duas décadas. A Seção de Química realizava pesquisas como o estudo da substituição do querosene por outro combustível em aparelhos de iluminação, e a determinação da uniformidade e do peso do revestimento de zinco em tubos de aço galvanizado.

Pesquisadora muito ativa, participava frequentemente de congressos e pesquisas. Na década de 1940 produziu quatro artigos, como a "Determinação espectográfica do molibdeno no aço" (Poli/IPT/1951). Casou-se em 1948 com o jornalista João Correa de Sá.

Na década de 1950, conquistou no IPT o cargo de engenheira tecnologista e interessou-se pelos materiais radioativos, quando a Seção começou a estudar métodos de análises de minérios de urânio e de tório, e o espectro de absorção de certos sais de terras raras em solução, com o pesquisador Paul Philipp. Em 1956 foi criada a Seção de Matérias-primas Nucleares para a qual Yolande foi transferida, passando a efetuar análises em areias monazíticas e minérios radioativos, estudos de dessalgantes para água do mar para a Marinha Brasileira e de carbogênico para o tratamento hospitalar. Três anos depois aceitou o convite para trabalhar no Instituto de Pesos e Medidas em Paris, onde pouco ficou por motivo de desavenças, transferindo-se em seguida para o Imperial College em Londres. Não retornou mais ao Brasil.

Mulher de convicções idealistas e éticas, sempre reagia a atitudes autoritárias e preconceituosas, defendendo suas ideias e a qualidade da pesquisa brasileira. Apesar de ter nascido na França, enfrentou na Europa dificuldades para trabalhar como pesquisadora, pois o diploma brasileiro não era bem visto pelos europeus. Por esse motivo foi trabalhar no ensino fundamental como professora auxiliar em países como França, Inglaterra, Tunísia e Nigéria. Morreu em 1998 em Chartres, na França.

Seu trabalho na área de C&T contribuiu para a difusão da ciência no país e foi importante para que o IPT ampliasse a presença feminina em seus quadros. Atualmente o Instituto conta com 131 pesquisadoras e, após quase 115 anos, tem pela primeira vez em sua história uma pesquisadora do quadro, Zehbour Panossian, ocupando a diretoria de inovação – por coincidência, também graduada em Física.


Depoimento do filho Matheus Correa de Sá

Matheus, filho de Yolande Monteux, relatou à Walkiria Chassot, do Acervo Histórico do IFUSP, um episódio sobre quando ela atuou no Bureau International des Poids et Mesures:

“Em uma conferência internacional de cientistas no Instituto Internacional de Pesos e Medidas, em Paris, ela quase criou um ‘incidente diplomático’: uma grande autoridade francesa apresentava palestra sobre um método de medida - creio que era uma medida de densidade de urânio - Yolande disse que no IPT, no Brasil, se fazia de um outro modo, com maior eficiência. E ouviu: ‘Você quer dizer que no Brasil há métodos mais adiantados que na Europa?’.

Minha mãe respondeu: "a inteligência e a capacidade de inventar não têm fronteiras e que não imaginava haver lugar, em um congresso científico, para argumentos baseados em preconceitos de superioridade, ilusões ou tradições, mas que só haveria valor para argumentos baseados em razões científicas, com provas experimentais".

Foi um pandemônio: Yolande deu uma aula - para um aluno de primeiro ano de ciência - sobre método científico, mas falava com um diretor francês do Instituto. Ela não teve a renovação em seu posto, e teve que procurar outro no Imperial College em Londres.

Esse é um exemplo das atitudes de uma mulher sem medo ...”.