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  13.02.17

Tecnologia e arte


IPT usa conhecimento tecnológico para contribuir com cerâmica artística do município de Cunha


Diferentemente dos trabalhos pelos quais o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) é contratado normalmente, envolvendo indústrias e produção em larga escala, a equipe da Seção de Recursos Minerais e Tecnologia Cerâmica finalizou em dezembro de 2016 um projeto para a prefeitura de Cunha envolvendo a identificação de depósitos e a caracterização de matérias-primas para a produção de massas de cerâmica artística na cidade. A abordagem, segundo o pesquisador Marsis Cabral Junior, consistiu basicamente em “usar a tecnologia para subsidiar o desenvolvimento da atividade artística”.

Cunha, município a pouco menos de 250 quilômetros da capital paulista, entre as montanhas do Vale do Paraíba e o litoral norte do estado, é um dos principais polos de cerâmica artística do País. Segundo levantamento do IPT, o primeiro ateliê de cerâmica foi construído em meados da década de 1970 e, desde então, muitos artistas mudaram-se para Cunha, motivados pelos atrativos naturais da região e pela atmosfera criativa da cidade.

A artista plástica e colaboradora no projeto do IPT, Amanda Magrini, afirma que Cunha ainda possui um diferencial entre os outros polos ceramistas do País: a tradição do chamado forno Noborigama. “Um grupo de ceramistas trouxe esta tecnologia do Japão por volta de 1975 e, a partir de então, tudo começou.
Visitas aos ateliês foram feitas durante o projeto, a fim de conhecer o método de preparo das matérias-primas, a fabricação das peças e as necessidades de melhorias no processo de formulação de massas e esmaltes cerâmicos
 
Hoje alguns ateliês organizam eventos para a abertura dos fornos, e muitos turistas comparecem para aprender sobre a história da cerâmica de Cunha e ver de perto a qualidade das peças queimadas em alta temperatura”, diz ela.

Os fornos Noborigamas são construídos em uma sequência ascendente de câmaras conectadas e são alimentados com lenha. “Ele pode atingir 1.400 °C e possui uma atmosfera de redução do oxigênio, com a deposição de cinzas das lenhas sobre as peças que gera efeitos inesperados”, explica Amanda.

PROJETO - Entre agosto e dezembro de 2016, uma equipe de seis profissionais do IPT esteve envolvida no projeto em Cunha, que foi financiado por meio do Programa de Apoio Tecnológico aos Municípios (Patem). O objetivo do estudo foi a avaliação do potencial da ocorrência de matérias-primas na região, com o intuito de incrementar o uso de insumos minerais locais nas massas plásticas utilizadas para a fabricação de utilitários e esculturas, e, consequentemente, fortalecer a originalidade dos produtos e do vínculo da atividade cerâmica com a cidade.

“A expectativa é que o maior enraizamento da cerâmica, a partir do uso de matérias-primas da região, possibilite a agregação de valor à produção artística do município, contribuindo para o seu desenvolvimento, por meio da geração de emprego e renda”, explica Cabral Jr.

Para isso, a equipe efetuou uma série de levantamentos em campo, envolvendo reconhecimento geológico, coleta de amostras de depósitos minerais (argila, caulim e feldspato) e caracterizações laboratoriais (químicas, mineralógicas e cerâmicas). Foram visitados os ateliês para conhecer o método de preparo das matérias-primas, fabricação das peças e as necessidades de melhorias no processo de formulação de massas e esmaltes cerâmicos.

Os estudos indicaram que a região detém um elevado potencial para a ocorrência de substâncias minerais para uso cerâmico, tanto como componentes básicos e acessórios em massas, como também para a formulação de vidrados. Essa aptidão abrange matérias-primas convencionais, como argilas e feldspato, como também outras substâncias minerais de aplicação inédita, no caso uma série de variedades de xistos e de rochas magmáticas de natureza diversa, entre outras.

A equipe do IPT também organizou uma oficina para os ceramistas em duas noites na cidade, na qual foram compartilhadas as principais conclusões dos estudos e orientações técnicas foram dadas para que os ceramistas possam controlar a qualidade de suas massas e identificar matérias-primas para o uso cerâmico. Cerca de 30 artistas participaram do evento.

“O intuito da oficina foi de proporcionar mais autonomia aos ceramistas para que possam produzir massas personalizadas, de acordo com as necessidades e preferências estéticas de cada um”, conta Amanda. “Optamos nesse projeto por um enfoque prático, que buscou demonstrar técnicas de campo e métodos laboratoriais expeditos que possam contribuir para o desenvolvimento da cerâmica de Cunha”, finaliza Cabral Jr.

Como conclusão do projeto, foi organizado um mostruário com as matérias-primas coletadas e as massas desenvolvidas, que está exposto no Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha desde novembro de 2016, e também no IPT.