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  18.07.17

Perigos do cerol


Mistura de cola e vidro moído usada em linha de pipas pode causar acidentes da rede elétrica e até mesmo mortes


Muita brincadeira, tempo livre e tardes ensolaradas são parte aguardada do ano de muitas crianças e adolescentes que entram em férias no começo do mês de julho. E uma das brincadeiras mais antigas e populares, herança geracional das nossas crianças, é empinar pipa.

A atividade tem o potencial de tirar os jovens de casa e unir amigos e família – o problema é quando ela se torna perigosa.

O uso do cerol continua frequente nos últimos anos apesar dos perigos que apresenta. Usado para tornar a brincadeira mais competitiva, o pesquisador Hamilton Lelis Ito, do Laboratório de Corrosão e Proteção do IPT, explica que “a técnica consiste em envolver a linha da pipa em cola e, posteriormente, vidro moído”. A intenção é cortar a linha de jogadores próximos, mas os danos causados pela prática vão de prejuízos à rede elétrica até morte de transeuntes.

Se para quem empina a pipa o único perigo que o cerol apresenta é o de pequenos ferimentos, reportagens já alertaram para o risco de que o fio poderia causar cortes profundos em quem passa pelas ruas e também em motociclistas, muitas vezes levando à morte.

Lelis Ito estudou um aspecto nocivo e potencialmente fatal da prática: o prejuízo a fios da rede elétrica e os riscos à população. O mote para a análise foi o caso ocorrido em 2009, quando um transeunte morreu eletrocutado por um cabo que se partiu e caiu em consequência do atrito com uma linha com cerol, no município de São Paulo.


Corte de fio da rede elétrica em detalhe
 


Um pedaço do cabo foi enviado ao IPT para análise de falha e, após a constatação de restos de rabiolas de pipa presos ao objeto e cortes nos arames que o constituíam, a equipe do laboratório concluiu que o rompimento havia acontecido em função do atrito de linha com cerol. O transeunte esbarrou no cabo caído e faleceu eletrocutado.

O pesquisador chama atenção para a necessidade de reforçar campanhas de conscientização. “A criança ou adulto que brinca descobre rapidamente que não leva choque enquanto segura uma linha de cerol encostada a um cabo condutor de eletricidade, mas não se pode esquecer do perigo para outras pessoas”, enfatiza. Especialmente porque, aos primeiros atritos com o cerol, o cabo pode não romper-se imediatamente, como explica Lelis Ito: “muitas vezes, o dano causado pelo atrito pode não ser suficiente para cortar o cabo, mas o torna menos resistente. Chuvas, ventos e outras circunstâncias a que normalmente o material resistiria podem ser suficientes para derrubar os cabos e causar acidentes”.

Há outros prejuízos menos graves que mortes, mas que, segundo pesquisador, devem ser lembrados. O rompimento de fios interrompe a transmissão de energia, e pode causar apagões na região abastecida por aquela rede. Além do transtorno à população daquela área e à companhia de distribuição de eletricidade - que terá de repor os cabos -, a escuridão pode tornar estes ambientes menos seguros e propensos a atos de violência.

Algumas soluções para o problema propostas pelo pesquisador são a construção de dutos e galerias para fios subterrâneos e, principalmente, a intensificação de campanhas públicas. A inviabilidade de aplicar a primeira opção a curto prazo para a maioria das grandes cidades, já construídas e que crescem sem planejamento, só aumenta a necessidade da segunda.