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  09.08.18

Gesto ambiental com tecnologia


Pesquisadora realiza treinamento na Austrália para auxiliar elaboração de projetos de uso e ocupação do solo


Para desenvolver competências na temática de geotecnologias aplicadas à análise ambiental, com ênfase em ferramentas para avaliação da dinâmica da cobertura da terra e elaboração de cenários futuros de uso e ocupação do solo, a pesquisadora Priscila Ikematsu, do Laboratório de Recursos Hídricos e Avaliação Geoambiental do IPT, participou do Programa de Desenvolvimento e Capacitação no Exterior (PDCE). O treinamento foi realizado entre os meses de setembro de 2017 e maio de 2018 no International Centre for Balanced Land Use (ICBLU), que faz parte do Newcastle Institute for Energy and Resources da The University of Newcastle, na Austrália.

Com financiamento da Fundação de Apoio ao IPT (Fipt), o treinamento de Priscila na Austrália foi realizado em razão das demandas do laboratório relacionadas à análise de transformações no uso e ocupação do solo – sejam elas em áreas urbanas ou em áreas protegidas, como unidades de conservação ambiental e bacias hidrográficas.
Treinamento da pesquisadora aconteceu entre setembro de 2017 e maio de 2018 no International Centre for Balanced Land Use (ICBLU), localizado na University of Newcastle, na Austrália
 
A maior parte dos trabalhos do laboratório, afirma ela, estava então pautada em mapas estáticos e diagnósticos, mas existe a necessidade de avançar no conhecimento de ferramentas de simulação de cenários futuros de expansão urbana, crescimento agrícola e/ou desmatamento – ou seja, diversos tipos de mudança de uso do solo que trazem impacto direto nos recursos naturais e hídricos (superficiais e subterrâneos) e, consequentemente, na qualidade de vida da população.

“Mapas estáticos de uso do solo urbano e rural não atendem mais hoje às necessidades dos clientes. É fundamental que se permitam simulações em ambiente computacional”, explica ela. Entre as linhas desenvolvidas no ICBLU, o tema ‘Cenários Futuros de Uso da Terra’ foi definido como foco principal do treinamento de Priscila por conta da expertise do centro australiano em desenvolver projetos para explorar e responder transições complexas, bem como inspirar práticas inovadoras de uso da terra que melhor equilibrem as preocupações sociais, econômicas e ambientais.

“Esses cenários são projetados para testar possíveis impactos ambientais, auxiliar na formulação de políticas e tomada de decisões, promover conscientização das partes interessadas, desenvolver pesquisas inovadoras e também entender as mudanças nos ecossistemas e os serviços por eles prestados”, explica ela. “É um instrumento para o planejamento territorial em diferentes escalas e uma capacitação a ser desenvolvida no IPT, sem contar que o tema está associado ao meu projeto de doutorado sobre serviços ambientais hídricos”.

FERRAMENTAS – As diversas atividades de Priscila durante o treinamento, que ocorreram de maneira simultânea no ICBLU, podem ser agrupadas em três grupos: prospecção de ferramentas de geotecnologia desenvolvidas por universidades ou instituições governamentais da Austrália para análise do uso do solo e elaboração de cenários; participação em projetos e propostas do centro e realização de treinamentos/participação de eventos.

Para a capacitação no uso das ferramentas, contatos foram feitos com uma série de grupos de pesquisa que estudam a aplicação de técnicas de construção de cenários; um deles foi o Australian Urban Research Infrastructure Network (Aurin), da Universidade de Melbourne.
Prospecção de ferramentas de geotecnologia desenvolvidas por universidades ou instituições governamentais da Austrália para análise do uso do solo e elaboração de cenários foi uma das atividades de Priscila...
 
Esta é uma rede colaborativa de pesquisadores e provedores de dados, dos setores acadêmico, governamental e privado, que reúne, em um portal online único, mais de 2.600 conjuntos de dados multidisciplinares (como demografia e indicadores sociais, atividade econômica, habitação, infraestrutura, transporte e uso do solo), de aproximadamente 90 fontes.

A rede disponibiliza um conjunto de ferramentas adicionais open source, abrangendo modelagem, planejamento e visualização espacial e estatística. “A iniciativa simplifica as interações entre os profissionais e atende à crescente demanda por acesso de código aberto, assim como as tomadas de decisões baseada em evidências”, afirma Priscila. O grupo desenvolve diversas ferramentas para o planejamento territorial, como o What if Planning Support System e o Envision Scenario Planning Tool.

O primeiro é um sistema de suporte ao planejamento de código-fonte aberto, baseado em dados de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) existentes para apoiar a análise da adequação da terra para diferentes usos, projetar demandas futuras e alocar as solicitações projetadas para os locais mais apropriados; o segundo é um conjunto de ferramentas de planejamento e avaliação de esboços de cenário 3D com base na web para projetos urbanos. O Envision é empregado para investigar o uso do solo e a visualização sobre as futuras demandas de energia e de água, transporte, custo de construção e operação, entre outros, associadas a um determinado cenário.

Outra Instituição de destaque na Austrália é o Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), o órgão nacional para pesquisa científica que fornece informações e tecnologias ao governo e às indústrias para proteção, restauro e gestão de ambientes naturais e construídos. Diversos modelos já foram desenvolvidos pela instituição e Priscila teve a oportunidade de ter contato com o Landscape Futures Analysis Tool (LFAT) e o Land Use Trade-Offs (LUTO).

O LFAT foi concebido em parceria com a Universidade de Adelaide com o objetivo de elaborar cenários de uso da terra a partir de combinações de clima, preços de commodities, custos de produção e preços de carbono; já o segundo, o LUTO, é um modelo ambiental e econômico integrado que estima futuros contratos de uso de terras australianos em diversos cenários alternativos de mudanças políticas e globais.
...mas ela também teve contato com o Google Earth Engine (GGE), plataforma de processamento geoespacial baseada em nuvem.
 
O software utiliza um mapa de uso da terra agrícola como linha de base e combina dados ambientais e econômicos para identificar possíveis mudanças no uso da terra e o fornecimento correspondente de serviços ecossistêmicos, como sequestro de carbono.

Priscila teve contato, também, com o Google Earth Engine (GGE), uma plataforma de processamento geoespacial baseada em nuvem que foi desenvolvida, a princípio, para análises de dados ambientais em escala planetária, mas com exemplos recentes de aplicações em escalas macrorregionais. “A grande vantagem do GGE é a facilidade na manipulação, edição e criação de dados”, afirma ela. Por meio de diversas ferramentas de manipulação espacial, é possível elaborar mapas de tendências e quantificar diferenças sobre a superfície da Terra, incluindo desmatamento, seca, gerenciamento de água, monitoramento climático e proteção ambiental.

A aplicabilidade das ferramentas no laboratório do IPT dependerá da licença do software (com exceção do GGE, a única aberta), da disponibilidade e qualidade das informações e também da escala de aplicação. “É importante a questão dos dados de entrada para rodar um modelo e alcançar um resultado que seja aplicável na escala”, ressalta a pesquisadora. “Quando fiz uma apresentação dos trabalhos executados no IPT, mencionei que o nosso laboratório tinha essa abordagem mais regional, ou seja, a equipe trabalha principalmente em bacias hidrográficas ou em municípios inteiros. Existe uma diferença quando se trabalha em uma realidade mais local porque são dados primários que o pesquisador precisa coletar para alimentar o sistema”.

PROJETOS E EVENTOS – Além do conhecimento sobre as ferramentas para a elaboração de cenários, o treinamento foi delineado para interação com os serviços de pesquisa inovadora do ICBLU e ampliar as perspectivas de atendimento do IPT às demandas do governo e da indústria. Nessa linha, as atividades consistiram na familiarização com os projetos em andamento, participação de reuniões técnicas e contribuição com a elaboração de propostas.

Uma das atividades de Priscila foi acompanhar o plano de pesquisa desenvolvido pela universidade em parceria com a Secretaria Regional das Ilhas do Pacífico para fornecer soluções cooperativas e sustentáveis aos desafios enfrentados pela população da região, com foco em áreas ambientalmente críticas e prioritárias. O programa tem como linhas de atuação a resiliência às mudanças climáticas; a gestão dos ecossistemas e biodiversidade; resíduos (poluição e controle) e governança.

Priscila também acompanhou a elaboração de proposta na Ilha Norfolk, localizada entre a Austrália, Nova Zelândia e a Nova Caledónia, focada na dinâmica econômica, social e de uso da terra na ilha e as oportunidades de crescimento econômico sustentável, em parceria com o Consórcio de Pesquisa sobre Transições de Infraestrutura da Universidade de Oxford. “O projeto parte do conceito de economia verde e busca determinar as prioridades para o desenvolvimento de um sistema alimentar sustentável, assim como o empreendedorismo na ilha”, completa ela.

A pesquisadora também participou da 14th International Conference on Environmental, Cultural, Economic & Social Sustainability, realizada no The Cairns Institute da James Cook University, em Queensland. O evento, que é realizado anualmente desde 2005, discute a sustentabilidade abordando de maneira integrada questões ambientais, culturais, econômicas e sociais. Priscila apresentou o trabalho ‘Critérios para a priorização de microbacias formadoras do Sistema Cantareira no município de Joanópolis (SP) com foco no Pagamento de Serviços Ambientais (PSA)’ na seção temática Environmental Management and Governance da conferência.

PÚBLICO E PRIVADO – Segundo Priscila, os projetos na Austrália para uso de ferramentas de geotecnologia têm demandas tanto do setor público quanto do privado. A Universidade de Newcastle está localizada no Hunter Valley, uma das maiores regiões produtoras de carvão da Austrália com mais de 50 minas de corte aberto e subterrâneas, e são justamente as mineradoras as principais responsáveis pelos investimentos em pesquisas, muitas delas em parceria com investimentos do setor público. “Estes projetos estão na linha de planejamento e prevenção. A ideia atual é que a região se transforme e passe de uma matriz ‘suja’ a uma matriz ‘limpa’, até por conta das exigências mundiais”, completa Priscila.

Os conhecimentos poderão ser aplicados no setor público, no qual se concentra a maior parte das demandas do laboratório, mas também no setor privado. “Temos uma legislação ambiental forte e por isso as ferramentas têm aplicabilidade tanto na área de planejamento territorial quanto na linha de avaliação de impactos e recursos hídricos. É importante simular o que pode acontecer durante e após a construção ou expansão de determinado empreendimento ou zoneamento, conhecer os impactos e auxiliar na gestão dos problemas”, completa ela.

Ao mesmo tempo em que permitiu amadurecer os conhecimentos técnicos e explorar novas tecnologias e ferramentas para as linhas de atuação do laboratório, o PDCE trouxe à pesquisadora a oportunidade de conhecer pessoas de todo o mundo, vivenciar culturas e costumes e estabelecer laços com especialistas de outros países: “É uma experiência que capacita e estimula o pesquisador a sempre buscar crescimento técnico e novas possibilidades de trabalho”, finaliza ela.