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  30.09.11

Competncias transversais


Avaliação do ciclo de vida de bens e serviços é tema de workshop ministrado por pesquisadores do IPT


Não é mais possível colocar um produto no mercado sem pensar nas etapas de obtenção dos insumos, fabricação, distribuição, consumo e descarte: a linha de pensamento norteou as apresentações feitas por pesquisadores do IPT no workshop “ACV: Ações e Perspectivas”, que foi realizado ontem. A Avaliação do Ciclo de Vida, ou ACV, é um método empregado para estabelecer e quantificar os impactos associados a produtos e processos produtivos. Os estudos são feitos no Instituto desde 2009, quando foi aprovado o projeto interno “Engenharia do Ciclo de Vida: Consolidação de uma Estratégia de Ação do IPT”, envolvendo laboratórios de diferentes competências em uma abordagem multidisciplinar.

O workshop foi proposto como uma oportunidade de divulgar as ações e estudos em andamento em alguns centros do IPT na área, e assim criar a base inicial de uma nova área de pesquisas e futura venda de serviços. A pesquisadora Claudia Echevenguá Teixeira, do Centro de Tecnologias Ambientais e Energéticas do IPT, iniciou a apresentação com um histórico da evolução do pensamento em gestão do meio ambiente no País.

De uma responsabilidade praticamente ausente nas décadas de 50 e 60 a uma atitude pró-ativa na década de 90, com a adoção do ecodesign e das tecnologias limpas, as empresas chegaram ao século XXI com exigências mais restritas em suas cadeias produtivas. Atualmente, as discussões sobre as práticas de sustentabilidade aplicadas à produção industrial incluem a abordagem da base tripla de integração social, desenvolvimento econômico e renovação ambiental.

Para mostrar as aplicações, abordagens e métodos da gestão do ciclo de vida, Claudia colocou em discussão temas como ecologia industrial e ecodesign. O primeiro tem seu ponto crítico na dificuldade de cooperação entre as empresas pela troca de informações e na necessidade de criação de políticas públicas para balizar os dados a serem usados na avaliação dos impactos ambientais; o segundo está longe de ser uma questão única de design e prima por minimizar os impactos ambientais gerados ao longo do ciclo de vida do produto ao mesmo tempo em que se preocupa com desempenho, funcionalidade, estética, qualidade e custo.

O estudo de caso de um compressor de ar para tanques de peixes foi usado como exemplo do ecodesign na prática. A intenção dos pesquisadores envolvidos no projeto era avaliar a construção mecânica de quatro modelos disponíveis no mercado e, por meio de técnicas de ecodesign, propor alternativas de redesenho do produto com ênfase na redução de componentes e processos de manufatura, além da minimização de consumo de matérias-primas. Os compressores estudados possuíam de 19 a 34 componentes, fabricados a partir de quatro a seis materiais diferentes.

Por meio de alterações como o reprojeto dos sistemas de junção e um novo sistema de encaixe de peças, o modelo proposto conseguiu ser produzido com dez componentes e quatro materiais, mantendo o desempenho anterior e diminuindo os processos de manufatura.

BENEFÍCIOS – A Avaliação do Ciclo de Vida é uma ferramenta ainda pouco difundida no País, talvez por conta da falta de informações dos subsídios que ela oferece. Segundo Claudia, a identificação de oportunidades para a melhoria do desempenho ambiental de produtos, o aumento de informações dos tomadores de decisão para a definição de prioridades e a adequação da abordagem da sustentabilidade na publicidade são três exemplos dos benefícios em sua adoção.

No último mês de junho, exemplificou ela, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) criou uma série de normas éticas para apelos de sustentabilidade na publicidade, baseadas nos princípios da veracidade, exatidão, pertinência e relevância. Ficou estabelecido que as informações ambientais precisam ser verdadeiras e passíveis de verificação e comprovação, e que o benefício ambiental salientado deverá ser significativo em termos do impacto total do produto e do serviço sobre o meio ambiente, em todo o seu ciclo de vida. “Esta medida foi importante para frear a tendência de se afirmar que tudo é verde”, afirmou Claudia.

Com todas as vantagens na adoção de uma ferramenta capaz de avaliar as cargas e os impactos ambientais de um produto visando à melhoria de desempenho ambiental, o evento serviu como uma oportunidade para discutir o que falta para sua maior aplicação no País. Na opinião de Oswaldo Sanchez Júnior, pesquisador do Centro de Integridade de Estruturas e Equipamentos do IPT, a pressão para a adoção do método passa obrigatoriamente por uma ação coletiva.

“A preocupação na incorporação da ACV deve vir do poder público pela imposição de regras para os mercados produtores, que também estão conscientes da adequação de seus produtos para atender às restrições de exportação, haja vista a diretiva RoHS”, afirmou ele. “E também vejo um crescimento na busca dos consumidores finais pela aquisição de produtos que respeitem o meio ambiente. É possível consumir com inteligência e comprometimento”.

Sanchez Jr. estudou em sua dissertação de mestrado a aplicação da ACV à iluminação, que é responsável por 19% do consumo de energia elétrica no País. Comparando os subsistemas presentes em duas luminárias, como elementos de fixação, peças fundidas e componentes do sistema óptico, o pesquisador mostrou pelo método uma diferença de 22,8% na massa total dos modelos: “Essas informações podem servir como subsídios para a gestão de manutenção e disposição, e mostram a necessidade de ferramentas analíticas para o ranking de opções tecnológicas”.

Como prova da ampla possibilidade de aplicação da ACV no segmento industrial, a pesquisadora Rachel Horta Arduin, do Centro de Têxteis Técnicos e Manufaturados do IPT, levou ao workshop o seu trabalho atual com o método em sua dissertação de mestrado aplicada ao setor têxtil.