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  10.10.12

Razes do atraso


Professor da FEA-USP analisa problemas que impedem o avanço dos investimentos em inovação na América Latina


A inovação na indústria é algo desejável por governos, empresas e a sociedade em geral, mas os países da América Latina (AL) têm desempenho ruim nessa área se comparados às economias mais industrializadas do mundo. Só para se ter uma ideia, as exportações de produtos manufaturados de Europa e Estados Unidos em 2011 foram de, respectivamente, 80% e 76% de suas vendas totais, enquanto na América do Sul esse índice foi de 24%, pouca coisa melhor do que a África, 19%.

Feldmann (à dir.), ao lado do presidente do IPT, Fernando Landgraf, e da presidente do CRE, Ros Mari Zenha: ‘O problema de depender das commodities é que sempre pode surgir um país que vende mais barato’
 
A maior parte das exportações dos países do continente é de commodities, como, por exemplo, açúcar, soja e carne, o que indica que a indústria desses países ainda não está inserida na dinâmica global da economia. E se não há trocas comerciais, fica difícil também desenvolver tecnologia e investir em pesquisa. “O problema de depender das commodities é que sempre pode surgir um país que vende mais barato”, afirma Paulo Roberto Feldmann, professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA-USP) e também atualmente diretor da Microsoft.

As barreiras para o desenvolvimento da indústria manufatureira e, consequentemente, da inovação nos países da AL foram analisadas por Feldmann nesta segunda-feira, 8 de outubro, em palestra a cerca de 40 profissionais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), interessados em conhecer mais a fundo os problemas que entravam a inovação no continente. A palestra foi promovida pelo Conselho de Representantes dos Empregados (CRE), do IPT.

Feldmann acredita que a questão cultural é um dos principais fatores que está na base do problema. “A gestão de uma empresa é influenciada por questões culturais do país”, afirmou, lembrando o teórico Michael Porter, da Harvard Business School, que costuma dizer que “administração não é ciência”. Feldmann adquiriu experiência em assuntos da AL depois de ter trabalhado por oito anos na agência Ernst & Young, percebendo a cultura como um forte vetor de influência na gestão das empresas.

O professor também defende que a tecnologia direciona a economia, e não o contrário. “Ninguém explica como a tecnologia afeta a economia. Há modelos matemáticos para tudo – consumidor, empresas... –, mas para a tecnologia não existe isso”, disse.

Durante a palestra, Feldmann destacou a baixa produtividade na indústria como denominador comum entre os países do continente e relacionou fatores que reduzem a produtividade, como o custo para fazer negócio, que no Brasil, por exemplo, é prejudicado pelos custos de transporte e energia, por conta dos gargalos de infraestrutura; falta de crédito para a pequena empresa – enquanto, por exemplo, na Alemanha essas empresas concentram 50% do PIB, no Brasil a concentração das pequenas é de apenas 20%; carga tributária elevada mais burocracia; baixo nível de capacidade da mão de obra; e falta de uma política industrial clara.

Por conta da produtividade baixa, os indicadores de inovação também refletem a desvantagem dos países latino-americanos, conforme dados de 2009 apresentados por Feldmann. Enquanto Estados Unidos e Japão registraram, respectivamente, 45,7 mil e 29,8 mil patentes no ano, o Brasil contabilizou apenas 480 patentes. Da mesma forma, também faltam profissionais de tecnologia: o Brasil tem apenas 22 engenheiros para cada 10 mil habitantes, número que em Israel chega a 140 e nos Estados Unidos é de 73 engenheiros.