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  12.11.12

Engenharia ambiental ampla


Estágio de pesquisador nos EUA aumenta competências do IPT na avaliação de impactos e gestão de empreendimentos


O engenheiro ambiental e assistente de pesquisa Caio Pompeu Cavalhieri, do Centro de Tecnologias Ambientais e Energéticas, participou entre os meses de abril e setembro do Programa de Desenvolvimento e Capacitação no Exterior (PDCE) do IPT, com o objetivo de estudar técnicas em prevenção de erosão, controle de sedimentos e melhoria da qualidade da água em canteiros de obras. O estágio de seis meses foi realizado no Departamento de Ciências do Solo da North Carolina State University, na cidade de Raleigh (EUA), com financiamento da Fundação de Apoio ao IPT (Fipt).

Pesquisador participou de testes com tabletes de poliacrilamida, polímero usado para acelerar o processo de decantação do runoff nos canteiros de obras
 
As atividades desenvolvidas nos seis meses do estágio foram bastante semelhantes às desenvolvidas no Laboratório de Recursos Hídricos e Avaliação Geoambiental, unidade do pesquisador no Instituto: a identificação de impactos ambientais em rodovias e o estabelecimento de medidas para sua mitigação e monitoramento – nos seis meses de estágio, Cavalhieri participou de projetos em três rodovias em construção nos Estados Unidos: a NC 540 (Triangle Express Way), na cidade de Apex, a NC 87 (North Carolina Highway 97), em Fayetteville, e a NC 96 (North Carolina Highway 96), em Rolesville.

“A North Carolina State University tem uma forte participação em projetos de rodovias, mas também trabalha com programas de prevenção de erosão e controle de sedimentos em empreendimentos de pequeno e médio porte, como a construção de condomínios residenciais”, afirma Cavalhieri, que acredita na maior disseminação das tecnologias ambientais nos Estados Unidos pelo fato de a legislação do país estar mais atenta a detalhes que podem trazer diferenças. “O assoreamento e o aumento da turbidez em corpos d’água não estão associados somente a grandes obras, pois contribuições pontuais como a construção de casas e pátios industriais também têm potencial para causar impactos negativos significativos – afinal, temos mais áreas residenciais e comerciais do que rodovias”.

Grande parte das atividades desempenhadas pelo pesquisador na universidade foram práticas, principalmente em projetos de P&D financiados pelo North Caroline Department of Transportation (NCDOT), instituição estadual semelhante à Dersa no estado de São Paulo, e como colaborador em trabalhos de mestrado. Um dos principais projetos foi a execução de testes das chamadas Melhores Práticas de Gestão (BMP, ou Best Management Practices) que, dentro do contexto das atividades desenvolvidas, é o termo usado para descrever soluções de controle de problemas relacionados à erosão e à poluição das águas.

O uso de polímeros foi uma das alternativas examinadas no projeto, no caso a poliacrilamida (PAM), que é empregada para acelerar o processo de sedimentação das partículas em suspensão na água.

“A água de chuva que precipita sobre uma área com solo exposto dentro dos canteiros de obras percorre um determinado caminho para chegar a uma bacia escavada dentro do próprio canteiro, no qual ocorre o processo de sedimentação; no trajeto, esse volume de água carrega os sedimentos em suspensão, e o objetivo do projeto era verificar o que acontece quando ela entra em contato com o polímero ao longo do trajeto”, explica o pesquisador.

Este sistema é semelhante ao processo de floculação nas estações de tratamento de água, no qual partículas, principalmente as mais finas como a argila, entram em contato com um agente coagulante e formam flocos maiores e mais pesados que, além de acelerarem o processo de decantação, também ficam aderidos à superfície de barreiras fabricadas em materiais leves e de baixo custo, como fibras de coco, no caso do estudo feito nos EUA.

“Fazíamos o monitoramento da qualidade da água e da quantidade de sedimentos na entrada e na saída das bacias existentes nos canteiros de obras, para termos uma ideia do desempenho dos polímeros”, explica o pesquisador. Uma série de coletores de água de chuva, alimentados por painéis solares, era instalada em diversos pontos para a execução do projeto, com uma programação automática da coleta de acordo com dia/hora desejados.

JATEAMENTO DE SEMENTES – Outro projeto de grande porte incluiu uma técnica que foi desenvolvida na década de 1950 nos EUA e já está presente no Brasil, a hidrossemeadura. Insumos como sementes de gramas, fertilizantes e corretivos de solo são misturados dentro do tanque de um caminhão para a formação de uma massa líquido-pastosa, que pode ser elaborada em diferentes concentrações de água, e um sistema mecanizado instalado no veículo lança o material por meio de um jato de alta pressão sobre taludes ainda sem vegetação.

Em um trabalho de mestrado também financiado pelo NCDOT, foi estudado o desempenho de diversos tipos de proteção do solo, como grama em sementes, grama em placas e a hidrossemeadura. Os ensaios foram feitos em 20 áreas-piloto controladas, sobre as quais duas novas técnicas foram empregadas: uma camada de palha era jateada sobre cada uma das coberturas, para funcionar como uma proteção para as sementes lançadas e, em seguida, aplicava-se uma solução de betume sobre a palha para impedir o seu deslocamento devido à ação do vento.

 
  • Diário de Viagem - Caio Pompeu Cavalhieri
 


A equipe da universidade coletava a água da chuva na área para analisar a quantidade de sedimentos carreados e as alternativas mais indicadas para alcançar os melhores índices de infiltração e evitar a formação do run-off, que é o volume de águas pluviais que não consegue infiltrar no solo e, em certos casos, pode até agravar os efeitos de enchentes ou inundações. “É interessante pensar em um projeto semelhante para uma cidade como São Paulo, por conta dos problemas enfrentados principalmente em meses do ano marcados por chuvas intensas... e também porque os testes eram feitos em áreas com solo compactado mecanicamente, que é uma característica comum de terrenos sobre os quais as rodovias são construídas”, completa o pesquisador.

A partir dos conhecimentos adquiridos, Cavalhieri planeja manter os estudos no IPT pela elaboração de um projeto interno e aumentar a capacidade de monitoramento nos trabalhos em execução. Ele ainda destaca que há potencial para o desenvolvimento de projetos desse tipo no Brasil, já que técnicas semelhantes são aplicadas quase exclusivamente no ramo de construção de rodovias e em áreas agrícolas – “parte do desafio para popularizar as técnicas está em mostrar os impactos positivos para segmentos como companhias de saneamento, interessadas em reduzir custos com desassoreamento e captar água de melhor qualidade, e construtores de médio e pequeno porte envolvidos em processos de certificação ambiental”.

Entre os exemplos mais significativos de projetos sob essa abordagem com a participação do IPT, estão as obras de duplicação da Rodovia Raposo Tavares, a construção da pista descendente da Rodovia dos Imigrantes e, mais recentemente, a construção do Trecho Sul do Rodoanel.