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  14.10.15

Tcnicos com tecnologia


Em evento realizado em outubro no IPT, técnicos do Instituto relatam cases de projetos inovadores


O quadro do IPT conta hoje com 204 técnicos especializados, que representam 20% de sua força de trabalho. Apesar de desempenhar um papel essencial no dia a dia da instituição, operando o desenvolvimento das pesquisas tecnológicas e de inovação, a atividade desses profissionais nem sempre é visível. O último Café com Tecnologia realizado no Instituto, no dia 6 de outubro, deu voz a esses atores, com o objetivo de mostrar casos inovadores em que a habilidade, experiência e conhecimento dos técnicos foram determinantes para o sucesso do projeto.

O trabalho do técnico em mecânica Samuel Dias Duarte, do Laboratório de Engenharia Térmica, envolve a monitoração de processos industriais de combustão e gaseificação, visando a redução do consumo energético e a emissão de poluentes atmosféricos. Há 20 anos no IPT, Duarte se vale da criatividade para resolver os problemas decorrentes do trabalho e para buscar mais eficácia e segurança nos procedimentos empregados pelo laboratório, de maneira que projetar e desenvolver equipamentos pró-ativamente não é novidade para ele.

Samuel Duarte apresenta o sensor de umidade que desenvolveu para uso no sistema de amostragem de gases
 
Duarte apresentou no evento sua última invenção, um sensor de umidade que é utilizado no sistema de amostragem de gases para análise contínua de composição, impedindo que um eventual problema danifique os instrumentos do laboratório do IPT. “Os equipamentos que utilizamos são complexos e caros e a presença de água nos gases analisados pode comprometê-los. O modelo que criei possui um sensor que aciona o alarme no caso de detecção de umidade nos gases, antes de eles chegarem nos analisadores, alertando a equipe do problema e permitindo sua imediata resolução”, afirma Duarte.

O aparelho, cuja demonstração foi feita para a plateia, já passou por testes práticos com sucesso e foi incorporado à rotina de ensaios da equipe. Equipamento semelhante está disponível no mercado, mas a um custo alto, que gira em torno de R$ 10 mil. Além das horas técnicas de Duarte, o sensor desenvolvido no IPT teve custo da ordem de R$ 50.

RECUPERAÇÃO DE OBRA - Ronecir Cirilo da Cruz dedica-se ao IPT há 40 anos. Integrando a Seção de Engenharia de Estruturas, que trabalha sobretudo em projetos de reabilitação e acompanhamento tecnológico da construção de obras civis, o técnico relatou sua participação em trabalho que o Instituto realizou na década de 90 na sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), localizada na capital amazonense. O edifício, projetado pelos arquitetos Severiano Porto e Mario Emilio Ribeiro e composto por diversas cúpulas piramidais independentes e justapostas, sofreu um grande incêndio, que danificou as estruturas e ocasionou trincas, impregnação de fuligem, destacamento do concreto, exposição de armaduras e surgimento de grandes falhas no concreto que ocorreram durante a construção. O trabalho do IPT consistiu principalmente em avaliar a segurança estrutural do prédio, fornecer assistência técnica para a obra e supervisionar a execução dos trabalhos.
Cruz: grande desafio do IPT foi reposicionamento das cúpulas após incêndio
 


Para cumprir esses objetivos, a equipe do IPT realizou atividades de inspeção detalhada da estrutura para descobrir pontos críticos; escoramento de cúpulas; macaqueamento de cúpulas para recuperação emergencial das cunhas de apoio; monitoramento da movimentação das fissuras; provas de carga e remoção da fuligem de todo o edifício. O grande desafio foi o reposicionamento das cúpulas. “Com o incêndio, as cúpulas se expandiram, empurrando as que estavam nas extremidades e deixando-as em precárias condição de apoio. Uma delas caiu. Com o resfriamento, frestas surgiram entre elas”, explica Cruz.

Para lidar com o problema, a experiência de Cruz na primeira obra ‘empurrada’ no País – um viaduto da Ferrovia do Aço - foi fundamental, pois a mesma técnica foi usada para reposicionar as cúpulas. Ela consiste na confecção de um aparelho de apoio deslizante, feito de PTFE politetrafluoretileno (teflon) sobre aço inox polido e lubrificado com vaselina. Foram utilizadas ainda guias metálicas para conter deslizamentos indesejados. Com esse dispositivo foi possível movimentar as cúpulas de 160 toneladas cada, retornando-as a sua posição original.
Obra restaurada, com vista das cúpulas, depois de trabalho do IPT
 


Com tantos anos de atividades no IPT, Cruz oferece algumas dicas para os técnicos mais jovens. Para ele, é fundamental para o profissional o conhecimento pleno da capacitação de seu laboratório, além das demais unidades do Instituto, assim como acompanhar todo o trabalho que está sendo desenvolvido, desde o planejamento até a emissão do relatório. “Fazendo isso, o profissional vai aprender mais; há pessoas que só fazem o ensaio, pensando que o pesquisador é quem pode fazer o relatório, mas aí você não conhece o fim e o resultado da sua própria atividade”.

MODELO DE UTILIDADE - O técnico Renato Barros Araujo trabalha no Laboratório de Análises Químicas, atuando na área de plásticos e borrachas. A maior parte dos clientes que atende está interessado na avaliação da performance de seus materiais e na solução para eventuais defeitos dos produtos. Os ensaios são geralmente realizados em uma ‘máquina universal’, que recebe os diferentes corpos de prova e atua de maneira automatizada. Ocorre que muitas vezes as necessidades dos clientes são inusitadas e o equipamento não dispõe de acessórios que permitam a realização do ensaio conforme as normas. Nesses casos, a solução nasce da engenhosidade. “O que queremos é atender as necessidades do cliente. Então trabalhamos em uma série de adaptações de garras da máquina, responsáveis por fixar os corpos de prova de tal maneira que o ensaio possa ser realizado na condição mais próxima a que o produto do cliente estaria durante sua vida útil”, explica Araujo.

Um dos casos apresentados no evento partiu da necessidade do Centro de Tecnologia da Informação, Automação e Mobilidade do IPT, que queria avaliar a força de adesão dos tags rodoviários nos vidros dos automóveis. Como a máquina não oferecia o suporte adequado, a inovação se deu na adaptação do sistema de garras para permitir o ensaio.

No segundo caso, um cliente do segmento automotivo queria testar seu produto quanto à força de adesão do polímero no vidro e no metal. O corpo de prova confeccionado pelo cliente, no entanto, não conseguia ser fixado na máquina. Na impossibilidade de realizar o ensaio, tendo em vista que o vidro escorregava ou quebrava quando preso à máquina, Araujo projetou com a equipe um dispositivo que, atuando como uma garra, permitiu que o cliente não necessitasse mais preparar corpos de prova cortando vidro, mas sim colando o metal diretamente no vidro do automóvel. Funcionando como uma garra de fixar, o novo dispositivo dispensava o corpo de prova convencional e permitia que o cliente utilizasse o próprio vidro usado no automóvel, tornando uma condição experimental mais próxima do real. “A dificuldade encontrada foi uma oportunidade para expandir”, afirma Araujo.
Araujo, em apresentação que mostrou modelo de utilidade desenvolvido para atender setor automotivo
 


Para a plateia que compareceu ao evento, ficou clara a importância da parceria dos pesquisadores no reconhecimento do trabalho dos técnicos e do espaço para a criatividade. De acordo com Ademar Hakuo Ushima, pesquisador do Laboratório de Engenharia Térmica, “um ponto importante é estimular a criatividade em todos aqui no IPT, não só nos engenheiros e pesquisadores, mas também nos técnicos”. É essa atitude que vai, para ele, resultar numa cultura inovadora.