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  01.03.19

Biodegradvel ou no?

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Em alta no carnaval, glitters alternativos aos convencionais de plástico podem não ser biodegradáveis


Glitters convencionais e bioglitters foram ensaiados no Laboratório de Análises Químicas do IPT
 
Carnaval é época de brilhar, e muitas pessoas procuram adotar atitudes ecologicamente corretas. Frente aos malefícios dos chamados microplásticos no meio ambiente, do qual os glitters convencionais são parte, os chamados ‘bioglitters’ estão ganhando cada vez mais adeptos. Mas você sabia que nem todos eles podem ser considerados biodegradáveis?

Para entender essa questão, é preciso primeiro explicar o conceito de biodegradável - e ele não diz respeito a qualquer material que se desintegre ou se ‘misture’ simplesmente ao meio ambiente. Segundo Débora Linhares, pesquisadora do Laboratório de Biotecnologia Industrial do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), biodegradável é um material orgânico que pode ser consumido por organismos vivos (animais ou microrganismos, por exemplo) como fonte de carbono (alimento) e energia.

Glitter comum testado no IPT apresenta 53% de poliéster, 36% de sílica e 11% de outros aditivos
 
O grande problema do glitter convencional reside exatamente aí. Compostos em sua maioria por plásticos (PVC e PET) recobertos de um material metalizado (geralmente alumínio) e outros aditivos, eles contém material orgânico - o polímero -, mas ele não pode ser metabolizado por seres vivos no ambiente natural, ao menos não em um tempo compatível ao de um material biodegradável. A norma internacional ISO 14855 define um tempo de 180 dias para um polímero biodegradável ser decomposto no ambiente - embora não haja dados oficiais e exatos, estima-se que uma garrafa de plástico comum demore mais de 100 anos para ser degradada, por exemplo.

O Laboratório de Análises Químicas do IPT testou algumas amostras de glitter convencional e estimou 53% de poliéster em sua composição. “Quando chega ao ambiente, acontece o que acontece com qualquer material não biodegradável: ele se acumula”, explica Débora. “No caso do glitter, considera-se a questão dos microplásticos. Esses pequenos fragmentos chegam aos rios e mares, entram na cadeia alimentar e,dependendo do sistema de tratamento, podem até chegar à água de consumo, no caso de água doce”, esclarece.

E os ‘bioglitters’? Atualmente, a maioria das empresas - ou adeptos do ‘faça você mesmo’ - dedicadas a eles apostam em uma produção artesanal, em um combo que reúne rótulos como‘natural’, ‘vegano’ e o conhecido de biodegradabilidade. O que acontece é que esses glitters possuem uma variedade grande em sua composição: podem ser feitos com sal, açúcar, amido de milho, goma vegetal, eucalipto, celulose, minerais e corantes naturais - enfim, uma infinidade de matérias-primas.

Bioglitter testado no IPT é composto por mica e corante natural, não podendo ser chamado de biodegradável
 
No glitter alternativo testado no IPT, por exemplo, foi estimada uma composição de 96% de mica (um tipo de mineral) e 4% de corante natural. A mica é um material inorgânico, e portanto, o conceito de biodegradável simplesmente não se aplica. “Não há o que biodegradar: o componente principal não pode servir de alimento, ou a princípio, ser fonte de energia; o corante natural pode, mas está em uma porcentagem pequena na formulação”, aponta Débora.

Para a pesquisadora, o termo é utilizado pelo mercado para fazer uma contraposição ao glitter convencional, que se acumula no ambiente e é prejudicial à fauna. “A mica faz parte da composição da areia, e na quantidade em que são utilizados os glitters, não teriam potencial de causar um problema de sedimentação, entupimentos ou algo do tipo. Do ponto de vista ambiental, me parece bem melhor usar o glitter mineral ao invés do polimérico comum”, opina a pesquisadora.

Quanto às outras composições de glitter, que incluem matérias-primas orgânicas majoritárias em sua composição, incluindo os de base vegetal, é preciso atenção: materiais produzidos a partir de fontes ‘naturais’ não são sinônimos de biodegradáveis.

“Para dar um exemplo, o plástico do tipo polietileno produzido a partir do etanol de cana-de-açúcar tem a mesma propriedade química do polietileno obtido a partir do petróleo, e não é biodegradável. O apelo, na verdade, é a fonte renovável, que é a cana. Então, para saber se uma substância orgânica é biodegradável, são necessários ensaios e estudos específicos que apontem essa característica”, conclui.