08.03.19

Recuperao histrica

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Projeto para restauro de obra do século XVII conta com apoio do IPT para análise da composição das fibras


O projeto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) para restauração da Opera Omnia, obra de autoria do sacerdote Joannis Duns Scotus, teve o apoio do Laboratório de Papel e Celulose do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para a análise da composição fibrosa das amostras fornecidas pela biblioteca da instituição.
Obra de 1639 pertence ao acervo de livros raros da instituição e o estado de seus 12 volumes estava bastante comprometido...Crédito: Julita Azevedo
 
A obra datada de 1639 pertence ao acervo de livros raros da instituição e o estado de seus 12 volumes estava bastante comprometido, o que motivou os responsáveis à execução do projeto de reparação seguido de um estudo sobre o processo de confecção dos livros.

Segundo Maria Lucia Beffa, chefe da biblioteca da Faculdade de Direito, o projeto teve início em 2016 e foi concluído somente agora, em janeiro de 2019: “A coleção já havia sido submetida a uma restauração há cerca de 50 anos, mas este trabalho estava comprometendo a estrutura do livro”, explica ela. Alguns dos 12 volumes apresentavam praticamente todas as folhas soltas porque haviam sido atacados por brocas, insetos que se alimentam do amido presente na cola aplicada na lombada dos livros.

Maria Lucia explica que a política da biblioteca está baseada na mínima intervenção sobre as obras, ou seja, o restauro é feito apenas caso elas corram algum risco de perda. A importância de uma ação sobre a Opera Omnia reside ainda no fato de a coleção de 12 volumes presente na Faculdade de Direito ser possivelmente uma das únicas completas em todo o mundo: o conjunto de livros encontrado no Canadá tem cinco volumes e outra, da biblioteca da Universidad Complutense de Madrid, apenas seis.

“Para aprofundar o conhecimento referente às técnicas de confecção, o projeto foi além do tratamento de restauro e foi proposto um estudo sobre a confecção dos livros”, explica Julita Azevedo, conservadora e restauradora responsável pelo trabalho. Os trabalhos executados incluíram a pesquisa do local de procedência do papel – por meio da marca d’água, que permitiu identificar o papeleiro e o moinho em que foi confeccionado –, os tipos de fibras usadas, os elementos físico-químicos do papel e das tintas, e também a possível datação das folhas.

Segundo Julita, a primeira etapa do projeto foi o envio dos volumes com maior nível de deterioração para o Centro de Tecnologia das Radiações (CTR) do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), a fim de serem submetidos à irradiação de cobalto para tratamento de desinfestação.
...o que motivou os responsáveis à execução do projeto de reparação, seguido de um estudo sobre o processo de confecção dos livros.
 
Em seguida, os livros foram encaminhados a seu ateliê para numeração das páginas e mapeamento dos cadernos, a fim de evitar problemas futuros de ordenamento do material.

Os livros foram então desmontados e higienizados folha por folha. Os bifólios (duas folhas unidas que, dobradas, vão formando o caderno) foram carcelados (a carcela é uma tira de papel japonês que é colada no centro do bifólio e serve para deixar o local mais resistente, pois é a área em que passa a linha da costura) e escaneados para recorte dos enxertos; em seguida, foram restaurados com papel japonês, remontados e costurados seguindo a mesma técnica usada no passado, com cadarço de pergaminho.

Três fragmentos de papel foram submetidos no laboratório do IPT a uma avaliação da composição fibrosa pela norma ABNT NBR 14129:1998, que especifica o método geral para analisar a composição fibrosa de papel, cartão e pasta celulósica. As amostras foram desagregadas, colocadas sobre uma lâmina de vidro e coloridas; em seguida, foi feito o estudo das fibras – um microscópio acoplado a uma câmara digital permitiu a obtenção de fotomicrografias e foi comprovada a origem do papel como manufaturado a partir de fibras de algodão, também conhecido como papel trappo.

“Até o século XVIII, todos os papéis eram fabricados com restos de tecidos, como lençóis, cortinas e roupas. O material era enviado a moinhos, e o papel era produzido a partir de fibras de algodão, linho ou cânhamo. Depois se desenvolveu o método para fabricação a partir de madeira”, explica Julita.
Três fragmentos de papel foram submetidos no laboratório do IPT a uma avaliação da composição fibrosa
 
Outra série de análises foi feita no Instituto de Física da USP para descobrir os elementos químicos presentes no papel e na tinta, por meio do método de fluorescência por raios X.

“A análise de todos estes elementos (papel, tinta, fibra e filigrana) comprovou a autenticidade e o valor da obra, pois poderia ser uma coleção impressa atualmente, mas seguindo as características da época, ou seja, uma falsificação”, completa Maria Lucia. Após a conclusão da restauração, os livros estarão disponíveis para consulta na biblioteca aos pesquisadores que precisam ter contato com a obra. Todas as informações coletadas durante o projeto – ancorado pelo trabalho do IPT na identificação das fibras – serão disponibilizadas no banco de dados da obra.