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  12.12.17

Onde esto os rudos?


Projeto do IPT desenvolve método para execução do mapeamento sonoro de grandes cidades e centros urbanos


Um projeto realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) desenvolveu um método para a execução de mapeamento sonoro de grandes cidades e centros urbanos. Além de melhorar a capacitação do laboratório para a prestação de novos serviços, a expectativa é de o estudo fornecer subsídios para a execução do mapa de ruído urbano da cidade de São Paulo.

As discussões sobre a necessidade de a capital paulista ter um mapa de ruído se intensificaram a partir de 2014 com a realização da 1ª Conferência Municipal sobre Ruído, Vibração e Perturbação Sonora, que ocorreu entre 28 e 30 de abril daquele ano na Câmara Municipal de São Paulo. Um dos resultados da mobilização foi a elaboração da Lei 16.499, de julho de 2016, que dispôs sobre o desenvolvimento do Mapa do Ruído Urbano da Cidade de São Paulo e foi sancionada em agosto de 2016, aguardando regulamentação no momento.
Projeto-piloto selecionou para o estudo o quadrilátero formado pela Marginal Pinheiros (Ponte Eusébio Matoso), Avenida Paulista, Avenida Rebouças e Avenida Nove de Julho...
 
O mapeamento deve funcionar como uma ferramenta de apoio para o planejamento e ordenamento urbano na gestão de ruído da cidade, tendo como uma de suas finalidades a identificação de áreas prioritárias para redução de ruídos e a preservação de zonas com níveis sonoros apropriados.

Para auxiliar os administradores municipais na realização do levantamento, a física e pesquisadora do Laboratório de Conforto Ambiental e Sustentabilidade dos Edifícios do IPT, Elisa Morandé Sales, gerenciou de janeiro de 2016 a agosto de 2017 um projeto de capacitação para adaptar as metodologias mundiais existentes para São Paulo: “Cidades na Europa com mais de 200 mil habitantes precisam ter o mapa. Existe uma diretriz europeia e um guia de boas práticas, mas os documentos são muito amplos e foram elaborados para cidades que têm um perfil diferente da capital paulista. Nosso projeto foi desenvolver um método para grandes cidades, tendo como objeto o município de São Paulo”.

O guia de boas práticas, explica a pesquisadora, oferece algumas opções de métodos para executar o mapa de ruído: por meio de simulação, por meio de medições ou no formato misto, que foi a opção adotada no IPT. No método por simulação, são inseridos em softwares específicos os parâmetros referentes à topografia da região (se o terreno é plano, com aclives etc.), traçado das ruas, fluxo de veículos, tipo de pavimento, altura e material da fachada das edificações – no entanto, segundo Elisa, existe a possibilidade de os valores obtidos apresentarem diferenças em relação ao nível de ruído ambiental, caso não sejam realizadas algumas medições in loco que gerem dados para retroalimentar as simulações.

A metodologia das medições em uma cidade da extensão geográfica de São Paulo não seria viável porque o levantamento dos dados ponto a ponto demandaria muito tempo. A solução mista adotada no estudo recorreu a dados de fontes oficiais, como a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e a Prefeitura de São Paulo, além de medições feitas pela equipe do IPT para avaliar a atualização das informações.

MAPA PILOTO – Pelo fato de se tratar de um projeto-piloto, a seleção da área para o estudo buscou a presença da maior gama de meios de transporte disponíveis. A escolha recaiu então no quadrilátero formado pela Marginal Pinheiros (Ponte Eusébio Matoso), Avenida Paulista, Avenida Rebouças e Avenida Nove de Julho. “É uma área densamente povoada, com edifícios altos, residências e com a presença de corredores de ônibus; ela representa 3% da área monitorada pela CET, ou seja, 3% do centro expandido de São Paulo”, afirma o pesquisador Marcelo de Mello Aquilino, também do laboratório do IPT, que colaborou no projeto.

Após a delimitação da área de interesse, Elisa partiu para a inserção de dados de entrada no programa SoundPlan, que simula a propagação de ruído na cidade.
...e na imagem a topografia com as edificações da área selecionada. A região central é predominantemente residencial, com edifícios de até dois andares, bem mais baixos em relação aos prédios comerciais que estão nos extremos da região.
 
Cada uma das quatro vias principais que compõem o quadrilátero do estudo, além de vias de grande fluxo de veículos, como Avenidas Brasil e Faria Lima, foram tratadas individualmente na inserção de dados; para as vias menores, foi feita uma simplificação, considerando todas as vias coletoras (ruas que permitem o acesso e a saída das vias arteriais) com a mesma circulação de veículos por hora, o que é permitido pela diretriz europeia. “O projeto considerou a questão de quais simplificações e modelos adotar para o mapeamento”, ressalta a pesquisadora.

Na América Latina, cidades como Santiago e Valdivia, no Chile, possuem mapas de ruído – na capital chilena, por exemplo, o primeiro estudo data de 1989 e duas atualizações foram feitas em 2011 e 2015. “Executar um mapeamento em São Paulo ou em Santiago tem grandes diferenças: na capital chilena, todos os ônibus em circulação são de uma única montadora e não existe variação de marca, basta saber o número de veículos. O mapa em São Paulo será extremamente complexo por conta de os ônibus serem de diferentes montadoras e modelos, o que exigirá avaliar o ruído gerado de acordo com as particularidades do veículo”, lembra Aquilino.

Além disso, completa ele, um levantamento do Tribunal de Contas do Município (TCM) divulgado em maio deste ano mostrou que pelo menos 340 ônibus circulam em São Paulo com idade acima da permitida em contrato, ou seja, com mais de dez anos de fabricação.

Outra questão importante que necessita de definição diz respeito à classificação das motocicletas para a execução do estudo – somente na capital paulista, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran) de setembro de 2017, havia uma frota de ciclomotores, motonetas, motocicletas, triciclos e quadriciclos de 1.149.680 veículos. “É uma grande quantidade de motocicletas e uma questão a ser resolvida: como tratar as motos? Como um veículo leve ou como um veículo pesado? Apesar de ser um veículo leve, a motocicleta pode contar com escapamentos que provocam um ruído mais incômodo do que o de carros”, afirma Elisa.

Em alguns estudos, segundo os pesquisadores, foi encontrada uma relação de que uma motocicleta emite um ruído equivalente a cinco automóveis. Para o estudo feito no IPT, a motocicleta foi considerada como um veículo leve por conta da classificação da CET.

MEDIÇÕES EM CAMPO – Foram realizadas medições tanto nas vias principais quanto nas coletoras, a fim de fazer uma comparação em ruas e avenidas de grande fluxo e de menor movimento. O período escolhido foi o matutino. “Não foram percebidas diferenças significativas: os resultados das simulações ficaram bem próximos aos da medição in loco com o uso do sonômetro”, afirma Elisa, lembrando que o foco do projeto não foi o trabalho em campo, mas sim executar as medições para validar a simulação escolhida para o estudo.

“O objetivo era desenvolver um método de inserção dos dados no software e como fazer uma padronização para uma cidade grande e de tantas particularidades como São Paulo”, explica a pesquisadora. “Criamos um procedimento de operação de como produzir o mapa, tanto da parte de medição quanto de simulação, para que seja facilmente aplicado em toda a extensão da cidade”.

Aquilino ressalta a questão de o mapeamento sonoro não ser o ‘remédio’ para resolver os problemas das cidades: “O mapa funciona como um diagnóstico: o importante é ter um documento o mais fiel possível à realidade para que as autoridades possam adotar políticas públicas de mitigação de ruído em regiões onde for necessário, assim como de preservação de áreas em que o ruído é mais baixo. O mapeamento da cidade funciona como um raio-X e, a partir da interpretação dos dados, solução podem ser recomendadas. É uma ferramenta de gestão da cidade”, completa ele.