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  05.11.19

Madeira na construo


Pesquisadora do IPT discute cenário mundial do uso da madeira em edificações; Brasil ainda dá primeiros passos




Pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas participaram na França em setembro de 2017 do Woodrise Bordeaux 2017 – 1º Congresso Mundial de Construção Civil de Madeira em Altura, e firmaram um acordo de cooperação multilateral com instituições de quatro países para promover o uso da madeira em edificações de alto desempenho de maneira econômica, responsável e sustentável.

Dois anos após a assinatura do compromisso, a pesquisadora Ligia Ferrari Torella di Romagnano, do Laboratório de Árvores, Madeiras e Móveis do IPT, esteve presente na segunda edição do congresso, realizado na cidade de Québec (Canadá) entre os dias 30 de setembro e quatro de outubro, e faz um painel dos desenvolvimentos tecnológicos da área e um balanço das ações mundiais nestes 24 meses, incluindo o cenário brasileiro.

Qual foi a sua participação no evento? A segunda edição do Woodrise trouxe quais novidades?

Fui ao congresso com duas missões: conhecer as novidades da construção de edifícios médios e altos em madeira e participar de uma reunião do Woodrise Alliance, que é o pacto dos signatários do memorando de 2017. O evento contou com cerca de 800 participantes de 29 países que conheceram os principais projetos de edifícios de madeira no mundo. Houve um salto significativo na altura das edificações: a mais alta atualmente é o HoHo Tower, em Viena (Áustria), de 84 metros e 24 andares. É impressionante a evolução das construções em madeira no hemisfério norte, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Japão, além da Austrália.

Os palestrantes apresentaram seus projetos em detalhes, desde o dimensionamento das estruturas de madeira, da combinação da madeira com outros materiais,
Maquete de construção em madeira apresentada na feira_Crédito foto: Jet7Media
 
até discussões sobre como o uso da madeira proporciona benefícios ambientais para as cidades do futuro, que foi o foco principal do evento.

Por conta disso, as indústrias investem cada vez mais em máquinas e equipamentos para atender a este segmento, principalmente nos países do norte da Europa, como Noruega, Finlândia e Suécia. Um exemplo interessante são os parafusos para madeira que são fabricados a partir de um desenho específico e ligas metálicas para evitar rachaduras do material. É também forte a preocupação com os outros elementos de ligação, como os adesivos que precisam atender às forças requeridas pelos prédios altos – é bom lembrar o exemplo do hotel, afinal são 24 andares com lajes, vigas e paredes de madeiras laminadas e coladas.

Também foi muito significativa a presença de empresas brasileiras neste evento, diferentemente do anterior. Além do IPT, quatro empresas estiveram presentes: uma delas apresentou uma palestra sobre as expectativas de mercado para a construção em madeira engenheirada no Brasil e seus planos de investimento.

Em relação ao acordo de cooperação multilateral assinado em 2017 para promover o uso da madeira em edificações, qual o balanço que você faz nestes dois anos?

Em 2018, houve um evento intermediário no qual mais instituições de diversos países passaram a fazer parte desse acordo, totalizando 16 participantes. E no evento do Canadá mais nove participantes assinaram. Temos agora 25 instituições governamentais de 13 países, algumas delas são privadas, mas representam governos e são todas de interesse público, ou seja, não representam associações ou indústrias.

Foi interessante a presença de signatários da Ásia porque as edificações mais antigas de madeira no mundo estão no Japão – os próximos Jogos Olímpicos serão realizados em Tóquio e a sede das competições de ginástica, por exemplo, é toda em madeira engenheirada.

Temos no Brasil algumas indústrias se preparando para este mercado. O IPT atendeu a três empresas em diversos projetos desde 2017: uma delas, que comercializa madeira e investe em projetos de prédios, deve inaugurar nos próximos anos uma fábrica no estado do Paraná, com florestas próprias de Pinus;
Loja da rede de supermercados IGA, em madeira laminada colada, na cidade de Québec
 
outra delas é a primeira fábrica brasileira, no estado de São Paulo, a produzir painéis de Cross Laminated Timber (CLT), ou de madeira laminada colada cruzada, que permitem fazer estas estruturas em altura.

Outro cliente do IPT foi uma construtora em wood frame localizada na cidade de Araucária (PR), para edificações de até quatro pavimentos. Isso permitiu uma evolução na regulamentação da madeira na construção civil, porque eles desenvolveram com equipes de nossos laboratórios uma diretriz do Sistema Nacional de Avaliação Técnica (SiNAT), que é uma iniciativa da comunidade técnica para operacionalizar a avaliação de produtos inovadores na construção civil brasileira.

Estamos avançando, mas ainda há muita coisa a ser resolvida no que diz respeito à durabilidade, à biodeterioração e à resistência ao fogo e ao desempenho para a construção de edifícios que atendam tanto às nossas condições climáticas quanto à legislação.

Participei também da reunião de apresentação de novos signatários do Woodrise Alliance e o IPT foi convidado a sediar a reunião intermediária com todos eles, o que acontecerá em maio de 2020. Aceitei também o convite para ser a coordenadora sul-americana da aliança: minha missão será agregar países da América do Sul para que eles compareçam no Brasil no próximo ano e discutamos o terceiro encontro, que será realizado em 2021 em Kyoto, no Japão –
Ligia Ferrari e Andreas Kleinschmit von Legenfeld, coordenador do Woodrise Alliance, na Universidade de Laval, em Québec
 
uma reunião prévia no Canadá levantou os temas de durabilidade, segurança ao fogo, educação, mudanças climáticas, sustentabilidade, digitização e indústria 4.0.

Em 2017, você afirmou que tínhamos não apenas que aprender, mas muito a ensinar a estes países. Na época, você disse que a “construção em madeira desses países baseava-se no uso de coníferas, em um número de espécies muito limitado, enquanto a nossa diversidade de espécies de árvores e a disponibilidade de áreas para plantio eram maiores, o que poderia ampliar o leque de possibilidades na hora de construir”. Essas iniciativas que aconteceram no Brasil desde 2017 consideraram esta diversidade ou ainda estão muito concentradas em poucas espécies?

O desenvolvimento de novas espécies de madeira para a construção de prédios ainda deve demorar. O principal motivo é que ainda há muita pesquisa básica a ser desenvolvida e faltam estudos de silvicultura para colocar uma variedade de opções no mercado – para o uso de novas espécies, é preciso que sejam homogêneas e provenientes de plantios. Para isso, são necessárias mais florestas e precisa ser criada toda uma cadeia.

Por outro lado, as espécies de coníferas no Brasil, como os pinheiros do gênero Pinus, podem ser cortados em cerca de 18 anos – na Europa, eles podem levar 80 anos. Temos a possibilidade de desenvolver florestas para o mercado da construção civil com o Pinus, que é uma madeira leve, fácil de trabalhar e de crescimento rápido, e mais proximamente também com eucaliptos. Deve demorar um tempo para o mercado se consolidar como viável para outras espécies – para quebrar o paradigma da construção em madeira, aposto no Pinus por enquanto.

Todo material tem vantagens e desvantagens para uso na construção civil, e seu uso depende das condições em que se realiza uma obra e da viabilidade financeira de cada solução. A crise da construção civil no Brasil nos últimos anos trouxe uma maior procura por novas tecnologias construtivas, entre as quais se inclui a madeira, ou fez as empresas retraírem seus investimentos em sistemas inovadores?

É difícil dar uma resposta com certeza absoluta, mas a minha impressão é que as empresas brecaram os investimentos em inovação. As estruturas em madeira engenheirada não são necessariamente mais baratas do que aquelas usadas em outros sistemas e demandam especialização de mão de obra, mas a construção em si é muito mais rápida.

A manutenção de um canteiro de obras é muito cara e a construção em madeira é off site, ou seja, os elementos construtivos chegam ao terreno prontos para serem montados. Por ser modular, permite uma construção extremamente rápida, com baixa geração de resíduos, o que reduz os custos da obra – eu ressalto que este é um discurso do hemisfério norte, e não é possível fazer ainda um comparativo no Brasil.

O fato de a madeira fazer parte do chamado mercado de economia verde está sendo divulgado como um diferencial para as empresas que investem no material? De que forma?

Totalmente! O uso de madeira na construção civil é aderente à economia verde, à economia circular e à sustentabilidade, e tem um apelo ambiental muito forte não só do ponto de vista de mudanças climáticas, por ser um material fixador de carbono, mas também pelos serviços ambientais prestados por estas construções às pessoas e ao ambiente em que elas vivem.
Maquete de construção em madeira apresentada na feira. Crédito foto: Jet7Media
 
É um material que traz conforto e bem estar ao ser humano.

Na Europa, este discurso não é novidade e um dos principais fatores de venda de um projeto em madeira é a sustentabilidade ambiental. Aqui no Brasil não estamos ainda totalmente ligados a esta política. Esperamos desenvolver este discurso no IPT para alavancar o mercado: a madeira se mostra como o material mais sustentável, por conta do sequestro de carbono, da inovação dos sistemas e das infinitas possibilidades de desenho.

A construção de edifícios multipavimentos em madeira é mais rápida em relação a outros sistemas construtivos, o que pode torná-la mais barata também. O Wood Products Council, dos Estados Unidos, divulgou no mês de setembro que 664 edifícios estavam prontos, sendo construídos ou projetados no país. A presença da madeira na construção civil está crescendo principalmente em quais países?

Além dos EUA, o Canadá tem também uma quantidade significativa de projetos, assim como os países da Europa – por exemplo, existe um projeto no bairro de Verksbyen, localizado na cidade de Fredrikstad (Noruega), de construção de cinco blocos de cinco pavimentos todos em madeira, e outro de uma edificação destinada a um hotel de nove andares em Amsterdam (Holanda).

As questões tecnológicas nos EUA e na Europa estão mais adiantadas; no entanto,
Estruturas de madeira laminada colada no ginásio da Universidade de Laval, em Québec
 
enquanto os europeus veem a madeira como uma solução para construções de carbono neutro, nos Estados Unidos estas construções acabam sendo inseridas dentro do conceito de sistemas construtivos de baixo custo, com menor atenção à questão ambiental.

Não se podem esquecer, no entanto, outros desafios de construção na Europa, Ásia e América do Norte, principalmente por conta das variações climáticas e das temperaturas extremas, como a neve no inverno e o calor no verão, além de sismos e vendavais. Nestes países investe-se fortemente em proteção, com soluções de baixo consumo de energia. A construção em madeira, em conjunto com outros materiais, permite a instalação de sistemas para conforto ambiental e ainda é resiliente a abalos sísmicos.

O que falta para o Brasil aumentar a sua participação neste segmento? Os arquitetos canadenses Catherine St-Marseille e Nicolas Demers disseram aos participantes durante o evento para ‘pensar grande, começar pequeno e construir rapidamente’. É o caminho mais adequado?

Acho que este é o caminho mais apropriado para o Brasil! Existe espaço para novos sistemas, porém há uma insegurança do investidor brasileiro de destinar recursos em um negócio ainda não tecnologicamente resolvido. Ainda assim, é preciso pensar grande mesmo e investir em testes que garantam o desempenho e a durabilidade da construção.

Seria um problema construir um edifício em madeira de grandes dimensões e, após cinco anos, ele apresentar problemas. Está sendo adotada pelos players brasileiros uma série de medidas para aprimorar o sistema construtivo de madeira.
Estrutura de madeira da CECOBOIS, centro de construção em madeira de Québec, apresentada durante a feira_Credito foto: Jet7Media
 
Temos oportunidade de usar madeiras de excelente qualidade e de crescimento rápido para atender o mercado. É possível usar esta demanda para o plantio de florestas e, inclusive, combinar com a recuperação de áreas degradadas.

Após a sua criação em 2017, qual o balanço que você faz para a criação do Núcleo de Referência em Tecnologia da Madeira?

O núcleo está organizado em grupos de trabalho para discutir soluções de problemas comuns do setor, independentemente se os participantes são concorrentes ou não, como a normatização de estruturas e preservação de madeira, projetos, a formação de mão de obra qualificada (engenheiros e arquitetos) e o fornecimento de madeira de qualidade. São temas que discutimos com olho no mercado. O grupo acaba sendo uma ponte entre a área técnica e a indústria, para promover o uso de um material renovável e reciclável.